4. REPORTAGENS outubro 2012

1. CAPA  COMO ELES REALMENTE ENXERGAM O MUNDO
2. CINCIA  A PLULA DO ESQUECIMENTO
3. ZOOM  A ARTE DA DESTRUIO
4. DINOS ENTRE NS
5. SADE  A CINCIA DO COC
6. HISTRIA  AS EQUAES MAIS IMPORTANTES DA HISTRIA

1. CAPA  COMO ELES REALMENTE ENXERGAM O MUNDO
Entenda as cores destas pginas: aqui, uma imagem com filtro vermelho e ... ...aqui, outra imagem com filtro vermelho! Mas da forma como ces e gatos enxergam essa cor.
Ces so to conscientes quanto voc, gatos funcionam como radares e papagaios veem cores invisveis. Conhea uma nova realidade: o mundo sob a tica dos pets.

TEXTO / Carol Castro e Alexandre Versignassi
DESIGN / Jorge Oliveira
ILUSTRAO / Thales Molina

     Trs andares acima do trreo, a alguns lances de escada de distncia, muito antes de voc apalpar os bolsos em busca da chave, seu cachorro o aguarda ansioso atrs da porta. Ele sabe que voc, e no o seu Z, que recolhe o lixo do prdio todos os dias, est prestes a subir at o terceiro andar. Basta colocar o primeiro p dentro de casa para receber a saudao calorosa do bichinho. E no importa com quem voc esteja. Se chegar acompanhado com velhos ou novos amigos, ou mesmo com seu irmo gmeo, que mora no exterior h alguns anos, ele no vai pular nas pernas erradas. Ele sabe quem  voc.
     Mas no sabe quem ele . Coloque um ser humano em frente ao espelho e este animal bpede comea instintivamente a mexer no cabelo (achando que um tapinha na franja realmente vai deix-lo mais bonito). Um co, porm, consegue ser ainda mais bestial: a reao dele ao espelho  a mais completa indiferena. Nem uma olhadinha. Ele no reconhece a prpria imagem. E se no reconhece a prpria imagem, no tem aquilo que chamamos de conscincia, certo? At pouco tempo atrs, era o que a cincia achava. Animais que reconhecem a prpria imagem no espelho teriam conscincia  e a entram basicamente ns, nossos primos (os grandes macacos  chimpanz, gorila, orangotango), cetceos e elefantes. Os bichos que no se reconhecem no teriam noo de eu. No teriam conscincia.
     Mas a verdade provavelmente  outra. O problema no est nos animais que no se reconhecem no espelho. Est em quem testa a presena de conscincia sob a tica humana. O mundo de um cachorro ou de um gato no se cria majoritariamente com imagens, como o nosso. Eles veem com sons e, principalmente, cheiros. E o espelho exclui a melhor arma de reconhecimento do cachorro: o olfato. O bilogo Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, testou o prprio bichinho para saber se ele era capaz, de alguma forma, de se reconhecer. Em vez de testar imagens, Bekoff pensou como um co. Durante cinco invernos, toda vez que saa para passear com o companheiro, recolhia pedaos de neve onde o co havia feito xixi. Depois, recolhia neve com urina de outros cachorros.
     Ento Bekoff espalhava os blocos de neve  alguns com xixi do cachorro dele, outros com o de outros ces  por lugares diferentes. E a reao do melhor amigo do pesquisador era sempre a mesma: quando encontrava a urina de outro co, despejava um novo jato de xixi em cima para marcar o territrio como dele. Normal. Mas quando encontrava um bloco com a prpria urina, no dava bola. Sabia que aquele xixi j era dele, ento o territrio no precisaria de remarcao. Resultado: o cachorro sabe muito bem quem ele . Mas diferentemente de voc, que se reconhece pela fisionomia, ele faz isso pelo cheiro.
     Se o nosso mundo  rico em imagens, o dos animais domsticos, as estrelas desta reportagem, vem carregado de sons, cheiros e sensaes. E qualquer coisa acompanha uma poro de informaes: um poste  uma fonte rica de notcias, diz se outro animal passou por ali, quem era, e h quanto tempo isso aconteceu. Ainda  impossvel aguar nossos sentidos, entrar na pele deles e entender a riqueza de cada cheiro, som, imagem ou sabor. Mas d para entender como eles veem o mundo e descobrir por que seus pets insistem em fazer coisas que voc odeia  ou adora.

OLFATO ALM DO ALCANCE
     Rememore a primeira informao desta matria: gatos e ces constroem o mundo com cheiros, sons e um pouco de imagens. Para os ces, o olfato  fundamental. Existem entre 120 e 300 milhes de clulas olfativas dentro do nariz. Ns temos apenas 6 milhes. O que isso significa? Que eles podem at detectar cncer em humanos s farejando nosso hlito.
 o que pesquisadores do hospital Schillerhoehe, na cidade de Gellingen, Alemanha, descobriram em 2011. O oncologista Thorsten Walles e seus colegas deram amostras de tumores para que os ces farejassem. Era uma forma de treino, como fazem com ces farejadores de drogas  do um osso de borracha com cocana dentro para que o co aprenda a reconhecer o cheiro do entorpecente; a ele consegue reconhecer cocana camuflada at dentro de sacos de caf no fundo de uma mala.
     Os alemes fizeram mais ou menos isso, s que com amostras de clulas cancerosas. Depois, pacientes com cncer de pulmo em estgio inicial sopraram dentro de tubos de ensaio (que eram tapados em seguida). Os cientistas treinaram os cachorros para sentar cada vez que sentissem cheiro de cncer em algum desses tubos de ensaio. E os cachorros acertaram 71% dos casos.
     A ideia dos pesquisadores agora  construir uma espcie de nariz eletrnico que seja capaz de reconhecer os mesmos elementos qumicos caractersticos de cncer que os ces farejam. Seria uma mquina capaz de detectar a doena logo nos estgios iniciais  uma revoluo no mundo dos diagnsticos, que certamente salvaria vidas. Mas, por enquanto, h um problema:
determinar quais so esses elementos qumicos que denunciam a presena de um tumor. Como disseram os pesquisadores: Infelizmente, os ces no tm como nos dizer qual  a bioqumica do cheiro do cncer. Seja como for, o olfato deles continuar sendo uma ferramenta fundamental nessa busca.
     No  apenas a quantidade de clulas olfativas que deixa o nariz dos ces to poderoso. As partes internas do nariz e suas divises tm um papel importante. Para saber como funciona mesmo o nariz deles, uma equipe da Universidade do Estado da Pensilvnia convocou sete ces, colocou mscara neles e despejou alguns odores. Os pesquisadores conectaram o nariz de uma das cadelas participantes a um equipamento de ressonncia magntica. A revelaram o caminho do ar dentro das narinas caninas. Descobriram reas especficas de respirao e expirao. No nosso caso, por exemplo, no temos uma rea onde guardamos o ar inalado e outra onde fica o ar exalado. Por conta disso, quando respiramos, paramos de farejar e soltamos todo o gs, carregado de odores, de volta para o mundo. Nos ces isso  diferente, enquanto respiram o processo olfativo continua ligado. E nenhum odor passa batido pelo co. Por isso mesmo, tanto eles como os gatos (outros campees na deteco de odores, com 200 milhes de clulas olfativas) usam o nariz para se reconhecer e trocar informaes.
     E para conversar com voc. Fungando suas meias e sapatos, eles descobrem por onde voc andou, se encontrou com outras pessoas, o que comeu, se fez sexo, fumou ou correu. Entende agora como seu calado  tentador para eles? O sof e a sua cama tambm. E onde mais houver o seu cheiro. Por isso mesmo, gatos e cachorros preferem ficar perto de lugares onde podem sentir o cheiro dos donos. Mesmo se for a sua poltrona nova. Isso funciona tambm com roedores  quando vo mudar de gaiola, recomenda-se colocar algum pano com o cheiro da gaiola antiga  e do dono.
     O papagaio no se importa tanto assim com o seu cheiro. Com faro pouco desenvolvido, ele reconhece voc pela aparncia ou voz. O paladar de um papagaio, alis, tambm  pssimo. Enquanto ns temos 9 mil papilas gustativas, nos papagaios esse nmero varia de 300 a 400. E ele no fica sozinho nessa pobreza gastronmica. Na lngua dos gatos s aparecem 473 papilas. Os cachorros tm um pouco mais: 1,7 mil. Assim como os papagaios, esses dois mamferos conseguem distinguir as quatro principais caractersticas da comida. Mas seu gato dispensa os doces, e o cachorro detesta comidas amargas (passe um caldo de jil na ponta do mvel que ele adora morder para ver se essa mania no acaba). Com um paladar to fraco, os dois no se importam em degustar com calma um prato de rao premium. Eles devoram os pratos  para que perder tempo se no tem um milho de sensaes para descrever, como fazem os humanos? Alis,  por causa desse ponto franco que os dois animais engolem qualquer comida que cair no cho.
     No fim da histria, quem sabe mesmo apreciar um jantar so os roedores. Os porquinhos-da-ndia e os coelhos tm 17 mil papilas gustativas espalhadas pela lngua. Quase duas vezes mais do que ns. Ento eles exigem um cardpio selecionado. Alguns desses bichinhos gourmet, para voc ter uma ideia, at rejeitam verduras e folhas com agrotxicos.
     Mas a falta de sensibilidade dos ces e gatos fica s no paladar mesmo. Nas coisas que realmente importam para a nossa convivncia com eles, os animais domsticos so gnios da percepo. At os cavalos so mestres nesse quesito.

OS SONS DO SILNCIO
A histria de Hans, um cavalo alemo, mostra bem a capacidade de observao e associao dos animais que criamos. No comeo do sculo 20, ele se tornou celebridade por acertar equaes matemticas. O dono escrevia na lousa uma conta como 1/2 + 1/3 e pedia a resposta ao animal. Ele batia a pata cinco vezes no cho, esperava uns segundos e batia mais seis vezes. Ou seja: 5/6. O dono dizia ter treinado o animal por dez anos. Pura malandragem do treinador. Por trs do raciocnio lgico do equino, o que havia era uma capacidade mpar de observao. Ele conseguia perceber sinais sutis no rosto do dono, que o pblico no tinha como observar. E, assim, descobria quando deveria bater ou no as patas no cho. Ou seja: um cavalo pode ser um timo parceiro de truco.
     Ces e gatos tambm. Eles reparam, associam e memorizam tudo. Cada gesto, cada barulho. Tudo serve de pista sobre o prximo passo do dono. Aquele tilintar de chaves sempre vem antes da despedida. O cheiro do perfume tambm precede a sua sada. Eles guardam e aprendem com esses sinais. Sabem quando voc est prestes a ir embora  e demostram toda a tristeza que sentem nesses momentos...
 quase impossvel escapar do radar dos ces e dos gatos. Os felinos escutam ainda melhor que os ces. E absurdamente mais do que voc. Um som que passe dos 20 mil hertz (o extremo do agudo) fica inaudvel para ns. J os gatos ouvem at 60 mil hertz. Os cachorros chegam aos 45 mil hertz. Isso porque os dois evoluram caando roedores, ento conseguem captar os sinais hiper agudos que os ratinhos emitem para se comunicar. Nem o som das vibraes corporais dos cupins passa batido pelos gatos. At o som de lmpadas fluorescentes (sim, elas fazem barulho) eles conseguem captar. Segundo a especialista em comportamento animal Temple Grandin, da Universidade do Cobrado, se voc estiver conversando no trreo, seu gato vai ouvir e reconhecer sua voz l do dcimo andar. Insano. 
     Eles ouvem sons naquilo que para ns  silncio. Mas isso no impressiona tanto quanto uma habilidade de outro animal domstico: o papagaio, que enxerga o que para ns  invisvel.

PAPAGAIOS PSICODLICOS
     Os papagaios veem o mundo com viso ultravioleta. Na prtica, enxergam cores invisveis. Quando eles olham para os pelos de outro papagaio, conseguem saber se  macho ou fmea, diz Susan Friedman, especialista em comportamento animal da Universidade do Estado de Utah. J ns, humanos, no conseguimos diferenciar papagaios de papagaias  s mesmo com interveno cirrgica para checar os rgos genitais (um processo bem invasivo), ou com teste de DNA.
     A viso ultravioleta tambm permite saber o grau de maturao de algumas frutas, como uvas, caquis e figos. Mas a graa dela vai bem alm dessa parte mais pragmtica. O mais bacana aqui  que os papagaios veem um mundo que para ns seria psicodlico. Temos trs receptores de cor nos olhos (para verde, azul e vermelho). Ento essas trs so as nossas cores primrias  e a combinao entre elas cria as cores do nosso mundo. Os papagaios (e outras espcies de aves, peixes e rpteis) tm quatro receptores: os nossos mais um dedicado ao ultravioleta. A combinao desses quatro cria um mundo estupidamente mais colorido que o nosso  um mundo to difcil de imaginar quanto uma realidade com quatro dimenses, em vez das trs que a gente conhece. O fato  que, se papagaios produzissem caixas de lpis de cor, elas teriam milhares de lpis. E olha que isso no  nada perto do que outros animais enxergam. O campeo mundial de viso, por exemplo, tem 12 receptores de cor. Doze cores primrias... Uau. E esse nosso amigo pra l de lisrgico nem  um animal dos mais relevantes: trata-se do mantis, uma espcie de camaro.
     Bom, pelo menos no mundo dos mamferos ns levamos vantagem sobre os animais domsticos. O gato e o cachorro possuem s dois receptores de cor (azul e verde). Ento o mundo deles  um pouco menos colorido que o seu. E diferente: o vermelho vira verde, o verde ganha um tom mais amarelado, e o violeta fica azulado. At o preto parece mais desbotado. O porquinho-da-ndia, diferente de outros roedores, que s enxergam em preto e branco, tambm tem viso bicromtica (vermelho e verde).  como se eles, os ces e os gatos fossem daltnicos.
     E essa no  a nica diferena. As imagens da televiso, por exemplo, no fazem sentido para eles. Nosso olho, assim como o de outros animais, no apaga uma imagem no centsimo de segundo seguinte  captao. Ele ainda a mantm viva por uma frao de segundo. Se antes desse tempo surgir outra imagem, voc ter a impresso de que as figuras esto em movimento.  o que acontece no cinema e na televiso: as cenas rodam numa velocidade de, no mnimo, 24 imagens por segundo. Se um filme mostrasse s cinco quadros por segundo, seria uma sequncia quase pausada de figuras, como um filme em stop motion.  assim que os ces e gatos veem. Eles enxergam mais em menos tempo: um cachorro consegue ver de 70 a 80 imagens por segundo, um gato v 100 imagens; at o porquinho-da-ndia ganha de ns, com 33 imagens por segundo.
     Essa percepo-extra faz com que eles vejam a programao de TV como se ela fosse em stop motion, com cortes entre cada cena. Alm disso, a tela fica tremida e d para ver a passagem dos quadros, que surgem de baixo para cima. Chaaaato.
     As TVs digitais resolveram parte desse problema. Elas rodam numa velocidade mais alta, a os cachorros conseguem ter uma viso mais parecida com a nossa, sem tremedeira na tela. Ainda assim, isso no basta para prender a ateno deles.
     Mas para os cachorros, pelo menos, cientistas criaram uma soluo: um canal de TV totalmente voltado a eles. Nicholas Dodman, veterinrio e pesquisador da Universidade Tufts, lanou a novidade nos EUA no comeo deste ano. O canal, chamado de DOGTV, mostra cenas de cachorros correndo pelo gramado, brincando entre si, pulando na piscina. Cada detalhe dos programas tem a ver com os interesses caninos. As cores foram adaptadas ao mundo daltnico deles e os sons tambm: o barulho da grama enquanto o cachorro passa por ela, o da bola que pinga no cho... O enquadramento tambm  diferente, as cenas foram filmadas do ngulo de um cachorro. Por exemplo, enquanto o bicho passa pela mata, o cachorro-telespectador v a grama alta, como se ele mesmo passasse por ela. Dodman testou a eficincia do canal. Ele preparou trs cenrios para cachorros: canais humanos, como CNN ou Animal Planet, o DOGTV e uma TV desligada. Com monitoramento via cmera, o pesquisador concluiu que 75% deles assistiram pelo menos um bloco a mais do DOGTV do que das outras alternativas. Outra diferena  que ces e gatos enxergam melhor na penumbra. Em volta do glbulo ocular deles existe uma membrana chamada tapetum lucidum, que funciona como um espelho e reflete toda a luz disponvel de volta para a retina. Graas a isso, eles conseguem enxergar at 40% melhor do que os humanos no escuro.
, perdemos feio nessas partes. Em compensao, temos um ponto a nosso favor: fveas, que so uma poro de fotorreceptores na rea central das retinas. Elas nos permitem ver bem coisas a poucos ou muitos centmetros do nosso nariz. Se voc colocar um brinquedo numa distncia entre 25 e 40 centmetros do nariz de um co, provavelmente ele ter dificuldades em v-lo. Ponto para ns. Mas, grande coisa, ainda ficamos atrs dos pssaros: os papagaios tm quase o dobro de fveas. Sem contar o fato de os olhos estarem posicionados nas laterais do rosto. Isso permite a ele ver o que acontece ao redor numa panormica de quase 360 graus. Se soubessem driblar, seriam timos jogadores de futebol  at porque xingar o juiz, os papagaios j sabem muito bem.

O PAPAGAIO SABE O QUE DIZ?
     Ele no grita biscoito  toa. Voc ensina o que  biscoito, ele aprende e grita o dia inteiro na tentativa de ganhar mais comida. Muitos deles dizem oi quando voc chega e tchau quando vai embora. Eles podem no saber semanticamente o que oi significa. Mas vem c: voc sabe, por acaso? No, porque esse significado nem existe. Oi  apenas um som que os falantes de portugus emitem para avisar que chegaram. E que ns aprendemos quando ainda somos projetos de gente. Por esse ponto de vista, um papagaio dando oi  algo to complexo quanto um ser humano dando oi.
     E talvez eles sejam ainda mais parecidos com a gente. Acho que entendem o contexto das frases. Dizer que  s imitao  subestim-los, aposta Susan Friedman. Nada ainda foi comprovado cientificamente, mas 30 anos de pesquisas parecem endossar a opinio de Friedman. Os papagaios podem resolver algumas tarefas lingusticas semelhantes com a mesma habilidade de crianas entre quatro e seis anos. Pelo menos foi assim com Alex, um famoso papagaio treinado pela pesquisadora Irene Pepperberg ao longo de 30 anos. Ele compreendia os conceitos das palavras mesmo, diferente, maior, menor e nenhum, alm de saber somar nmeros. No total, conhecia 100 diferentes palavras e distinguia cores e formas. Morreu aos 31 anos de idade, do lado de Irene.
     Eles podem no ter as artimanhas do crebro humano para racionalizar um dilogo e aprender uma lngua complexa, mas podem, por associao, entender os contextos de cada frase. Ou, como no caso do cavalo Hans, perceber no ntimo da linguagem corporal do dono como agrad-lo e responder da forma como espera. E no  nada surpreendente.
     Eles so bichos sociveis e se comunicam com outras aves por meio dos sons. Um rudo um pouco mais agudo pode significar perigo  vista, uma conversa  toa, ou um pedido de comida de um filhote. Cada cria, alis, recebe um nome logo aps o nascimento.
     Um estudo da Universidade de Cornell colocou cmeras em 16 ninhos de papagaios. As imagens mostram os pais falando o nome dos filhos antes mesmo que eles fossem capazes de cantar. Depois de algum tempo, os patriarcas ensinavam os filhos a reproduzirem os sons do prprio nome. Essa troca de nomes tambm no  sem propsito. Quando as turmas se misturam, fica mais fcil gritar o nome dos companheiros do que tentar encontr-los no meio da papagaiada. Mas, se h a suspeita de que os papagaios sejam gnios lingusticos, o mesmo vale para os ces e gatos?  o que vamos ver agora.
     Todo mundo sabe: um cachorro bem treinado senta quando escuta a ordem. Ou rola e d a pata. Mas eles entendem que essas cinco letras que formam a palavra senta significam flexione as pernas at apoiar as ndegas numa superfcie horizontal? E que rolar  o ato de fazer girar? No, claro. Mas aquela mania de passar o tempo a observar o dono o deixa pronto para memorizar o som da palavra, a entonao, os movimentos corporais e o que aquilo tudo significa.
Eles aprenderam as deixas mais fceis para eles e no a palavra senta, que os ces, com seu repertrio limitado de sinais vocais, devem achar difcil de distinguir de outras expresses que soem de maneira parecida, conta John Bradshaw, no livro Co Senso.  a mesma lgica do cavalo Hans: eles aprendem os pequenos sinais corporais do dono.
     Para ganhar espao no mundo dos homens, seu pet aprendeu a observar cada passo seu. At os porquinhos-da-ndia fazem isso: deixe a gaiola num lugar onde no d para ver nada e voc vai perceber a frustrao dele  dificilmente o animal vai interagir com voc. Ele precisa conhecer os donos para se acostumar com a companhia e viver as mesmas rotinas. Mas para isso o bicho precisa de tempo para observar.
     E eles nos entendem profundamente: sabem quem somos, o que fazemos, coisas que nos agradam ou no (mesmo quando desobedecem). S quem parece ainda no conhecer to bem os companheiros so alguns humanos. Os pets j superaram essa fase. 

OLFATO
O nariz apurado de um co pode salvar vidas: treinados, eles detectam se uma pessoa tem ou no cncer de pulmo s pelo odor do hlito.  Mesmo que a doena esteja s no comeo. No h mquina capaz de algo parecido.
Homem  5 milhes de clulas olfativas
Cachorro  300 milhes de clulas olfativas
O melhor olfato: URSO 4 bilhes de clulas olfativas

AUDIO
Nenhum animal domstico  preo para o gato no quesito audio.  Ele consegue ouvir os sons das vibraes corporais dos cupins. E voc chegando no trreo, mesmo que esteja num apartamento no dcimo andar.
Homem  20 mil hertz
Gato  60 mil hertz
A melhor audio: BALEIA-BRANCA (OU BELUGA) 123 mil hertz

VISO
Temos trs receptores de cor nos olhos: um para cada cor primria (vermelho, azul e verde). Os papagaios tm quatro: os nossos mais um para o ultravioleta. O mundo deles, ento,  bem mais colorido que o seu.
Homem  3 receptores de cor
Papagaio  4 receptores de cor
A melhor viso: CAMARO MANTIS 12 receptores de cor

PALADAR
Cachorros e gatos praticamente no sentem o gosto da comida. Se voc quiser um bicho de estimao com paladar apurado, compre um porquinho-da-ndia, que tem duas vezes mais papilas gustativas que os humanos. Ou arranje um bagre, o campeo mundial de paladar, com trs vezes mais papilas que voc.
Homem  9 mil papilas gustativas
Porquinho-da-ndia  17 mil papilas gustativas
O melhor paladar: BAGRE 27 mil papilas gustativas

PARA SABER MAIS
Na Lngua dos Bichos, Temple Grandin, Rocco, 2006
Think Like a Cat, Pam Johnson-Bennett, Penguin Books, 2011
Co Senso, John Bradshaw, Record, 2012


2. CINCIA  A PLULA DO ESQUECIMENTO
Pense na pior lembrana da sua vida. Pode ser aquela vez em que voc foi assaltado. O dia em que foi demitido  ou o amor da sua vida te largou. Todo mundo tem memrias ruins. Mas e se existisse um remdio capaz de apag-las? Sim, ele existe. Voc tomaria?
Texto / Vanessa Vieira
DESIGN / Rafael Quick
FOTO / Arthuzzi

     Eram 23h30 de uma noite de domingo quando o telefone tocou na casa de Cludia (Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados). Ela acordou sobressaltada e o marido foi atender. A notcia era que o sobrinho, de apenas 17 anos, havia se jogado pela janela do 13 andar. Ao lado do aparelho, Cludia escutava os gritos da irm, que acabara de perder o filho. Em meia hora, ela e o marido chegaram ao local do suicdio. Numa confuso de sirenes e luzes, os bombeiros e a polcia trabalhavam em volta do corpo do rapaz  que ainda estava no cho. Trs anos se passaram, mas a cena ainda perturba Cludia. At hoje, se estou dormindo e o telefone toca, acordo querendo chorar, diz ela. Rudos de sirene ainda provocam tremores e taquicardia. Conseguir pegar no sono nos domingos  noite tambm virou uma tortura. Ela s adormece quando o cansao se torna mais forte do que as lembranas. Se pudesse, eu apagaria da memria aquela noite, diz.
     Talvez voc nunca tenha passado por uma situao to forte. Mas certamente guarda na cabea algum momento, ou mais de um, que preferiria eliminar  mas que sempre acaba relembrando sem querer. Todo mundo coleciona algumas lembranas ruins ao longo da vida. Isso  inevitvel. Mas, no que depender de pesquisadores de vrias partes do mundo, vai deixar de ser. Eles esto trabalhando num projeto incrivelmente ambicioso: a criao de uma droga que apague memrias ruins.
     Isso sempre foi considerado impossvel pela cincia. Mas o cenrio comeou a mudar no final da dcada de 1990, graas ao neurocientista egpcio naturalizado americano Karim Nader. Como os demais cientistas da poca, Nader sabia que as nossas memrias so apenas relaes de afinidade entre os neurnios. Quando voc memoriza alguma coisa  o endereo da rua onde mora, por exemplo , o seu crebro forma conexes entre os neurnios envolvidos com aquela informao. Eles ficam mais sensveis uns aos outros. Por isso, mais tarde, quando voc tenta se lembrar do endereo, a mesmssima rede de neurnios  ativada  e recupera a informao.  assim que a memria funciona.
     Mas Nader percebeu que havia uma coisa a mais. Para que essa amizade entre grupos de neurnios se formasse, o crebro precisava sintetizar determinadas protenas. Ele teve a ideia de bloquear a ao dessas protenas para ver o que acontecia. Primeiro, passou vrias semanas ensinando um grupo de ratinhos a associar um determinado som com um pequeno e doloroso choque eltrico. Sempre que o som era tocado, os camundongos levavam um choque (vida de cobaia no  fcil). Com o tempo, eles aprenderam a lio  e ficavam com medo assim que ouviam o som. At que Nader injetou neles uma droga que inibia a sntese das protenas da memria. O resultado foi dramtico, e deixou o cientista boquiaberto. Os ratinhos pararam de reagir com medo quando o som era tocado. A memria de medo tinha partido. Os ratos tinham esquecido tudo, diz Nader. O esquecimento era permanente, ou seja, persistiu mesmo depois que a substncia j havia sido eliminada do corpo dos animais.
     Essa experincia mostrou, pela primeira vez, que era possvel apagar memrias. Isso acontece porque, a cada vez que tentamos acessar uma lembrana, ela passa por um perodo de instabilidade, num processo chamado de reconsolidao. Ele tem trs etapas. Primeira: a informao sai do banco de dados do crebro. Segunda: ela chega  sua conscincia e  acessada. Terceira: a informao  gravada novamente no banco de dados. Nader descobriu que, se voc bloquear uma determinada protena, a terceira etapa simplesmente no acontece  e a memria no  regravada. Ela some para sempre.
     Nader foi alm. Ele queria saber se era possvel apagar apenas uma memria especfica, ou se o processo acabava deletando outras lembranas de forma involuntria. Ento fez mais um experimento. Primeiro, fez os ratinhos memorizarem uma sequncia de sons que precediam o choque. Depois, tocou apenas um som daquela sequncia antes de injetar a droga apagadora de memrias. Resultado? Os ratinhos esqueceram apenas aquele som  todos os demais continuaram gravados na memria, associados ao choque. Ou seja: no s  possvel apagar memrias,  possvel fazer isso com preciso de fraes de segundo. Nader no sabia direito em qual protena cerebral deveria mirar, e fez testes com vrias. At que o neurologista Todd Sacktor, da Universidade Columbia, encontrou o alvo.  a protena PKMzeta, que est envolvida com a passagem de sinais eltricos entre os neurnios. Se voc bloquear a PKMzeta enquanto o indivduo est se lembrando de alguma coisa, voc destruir aquela memria. Sacktor provou isso numa experincia em que ratos recebiam uma injeo de ltio  que provoca nuseas  sempre que comiam algo doce. A inteno era fazer com que as cobaias associassem o sabor com o enjoo. A estratgia funcionou, e logo os animais passaram a rejeitar comida doce. Mas, com uma simples injeo de um inibidor de PKMzeta, eles esqueceram aquilo e voltaram a gostar de doces. Os cientistas dizem que  preciso fazer mais testes para entender qual  o real efeito disso no crebro  e saber quais so os possveis efeitos colaterais, se existirem. Se usada de forma descontrolada, a tcnica poderia levar  destruio de memrias saudveis. Os efeitos da inibio da PKMzeta parecem ser mais potentes. O desafio est em regular essa potncia. Ns estamos trabalhando nisso, afirma Sacktor.
     Mexer na PKMzeta  dar um tiro de canho. O ideal seria encontrar protenas ainda mais especficas, que permitissem apagar s as emoes associadas a uma memria ruim  sem destruir a memria em si. Isso permitiria que uma pessoa pudesse se libertar do sofrimento associado a uma memria, sem necessariamente esquecer que aquilo aconteceu. Isso  importante porque preserva o aprendizado que conquistamos ao viver situaes ruins. Algum que sofreu um acidente de carro, por exemplo, ainda se lembraria do acidente  e, por isso, dirigiria com responsabilidade. S a angstia e o trauma ligados ao acidente seriam deletados. As pessoas poderiam se lembrar, sem ser sufocadas por aquela memria traumtica, podendo seguir adiante com suas vidas, acredita Karini Nader, hoje professor da McGill University, no Canad. O mtodo: voc iria a um consultrio mdico e, sob a superviso de um terapeuta, relembraria um fato desagradvel. Ao mesmo tempo, receberia a injeo de uma droga inibidora de protenas. E, como que por mgica, aquela memria que sempre incomodou tanto deixaria de ser um trauma.
     Isso j parece incrvel, mas existe uma corrente de pesquisadores trabalhando em algo ainda mais impressionante (e assustador tambm). Em vez de apagar as memrias, que tal modific-las?

BRILHO ETERNO
     Cientistas da McGill University e da Harvard Medical School descobriram que o propranolol, um remdio usado para tratar presso alta, tem um efeito colateral estranho:  capaz de alterar memrias armazenadas no crebro. Isso acontece porque ele inibe a atividade de um neurotransmissor, a norepinefrina. Os cientistas fizeram testes com pessoas que tinham passado por alguma situao traumtica. Elas receberam uma dose de propranolol e foram convidadas a relembrar o fato. As reaes mais intensas de medo e emoo desapareceram, e esse efeito se manteve mesmo depois que os voluntrios no estavam mais sob efeito do remdio. Segundo os cientistas, isso porque ele interfere na reconsolidao da memria, que  alterada e perde sua carga emocional antes de ser regravada pelo crebro.
     Num documentrio sobre o estudo produzido pela McGill University, uma paciente chamada Louise conta que finalmente conseguiu superar um trauma de infncia graas ao propranolol. Estuprada por um mdico quando tinha apenas 12 anos, ela sofreu durante toda a vida as sequelas psicolgicas disso. Eu no conseguia nem trocar de roupa na frente do meu marido, relata. Graas ao tratamento, Louise diz que as memrias recorrentes e pesadelos desapareceram, bem como o medo de tirar a roupa.
     No Brasil, tambm h pesquisas em torno de formas de promover o enfraquecimento de memrias traumticas por meio do uso de drogas especficas. Uma delas, realizada pela Universidade Federal de So Paulo (Unifesp), investiga a ao do topiramato, um remdio atualmente usado para tratar convulses. O topiramato seria capaz de inibir a produo de um neurotransmissor, o glutamato, que age no hipocampo  a regio do crebro que coordena o processo de formao de memrias. Em situaes de estresse, o nvel de glutamato ali aumenta. Isso poderia explicar, por exemplo, os pensamentos repetitivos que podem acompanhar uma experincia traumtica. Nossa hiptese  que, ao reduzir a liberao do glutamato, podemos inibir a reverberao de uma memria traumtica, explica Marcelo Feij, professor do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. No estudo, mais de 82% dos pacientes tratados com a substncia apresentaram melhora dos sintomas de estresse ps-traumtico.
     O estresse ps-traumtico  caracterizado por sintomas como ansiedade e depresso e est relacionado  lembrana de algum evento traumtico envolvendo ameaa  vida ou  integridade, como assaltos, sequestros, estupros ou acidentes graves. O problema afeta 6% da populao mundial, 420 milhes de pessoas. Um medicamento que fosse eficaz contra ele poderia melhorar a vida de muita gente.
     As substncias capazes de apagar memrias ruins tambm poderiam ser usadas para tratar dor crnica. Por razes que a cincia ainda no compreende completamente, em alguns casos, mesmo depois que um ferimento fsico j foi curado, alguns nervos continuam transmitindo sinais de dor na regio,
como se o corpo tivesse memorizado aquela dor. A tcnica tambm poderia ser usada como um tratamento para a dependncia qumica. Isso porque o vcio em drogas est relacionado  memria   associao entre o uso da droga e o efeito que ela proporciona. Se a pessoa se esquecer do prazer que sente ao consumir a droga, fica mais fcil largar o vcio. Num estudo realizado com ratos viciados em morfina, a inibio da protena PKMzeta ajudou a curar a dependncia dos roedores.
     Em suma: mexer com as memrias pode trazer consequncias muito boas. Mas tambm pode ser extremamente ruim. O Conselho de Biotica da Casa Branca j se manifestou sobre o assunto, apontando varias situaes em que o apagamento ou a alterao de memrias pode ser uma coisa ruim, antitica ou imoral. Um bandido poderia recorrer  tcnica para livrar da culpa por ter praticado um crime, por exemplo. Governos poderiam preparar seus soldados para matar  ou para voltar a matar  sem conflitos emocionais. Corremos o risco de falsificar nossa percepo e entendimento do mundo. Nos arriscamos a fazer com que atos vergonhosos sejam considerados menos vergonhosos, ou menos terrveis, do que realmente so, diz o relatrio.
     Para a psiquiatra, psicanalista e bioeticista carioca Marlene Braz a possibilidade de mudar ou apagar memorias poderia ter consequncias at sobre o sistema jurdico. Haveria uma tenso entre o direito individual de uma pessoa  que decidiu esquecer  e o direito da coletividade, j que, na prtica, isso significaria subtrair evidncias de um processo, j que no poderamos contar com o testemunho daquela pessoa , diz ela. Dlio Kipper, professor de Biotica do curso de Medicina da PUC do Rio Grande do Sul, ainda aponta outros conflitos nessa rea. A modificao de memrias poderia induzir a mudanas nos testemunhos.  um caminho muito perigoso, diz.
     At quem teria todos os motivos para alterar a prpria memria v essa possibilidade com desconfiana. Como a empresria paulistana Paula ( ), de 31 anos. Numa manh de sbado, em 2005, ela saiu do quarto e viu manchas de sangue pela casa. Em desespero, tentou abrir a porta do quarto do pai, que sofria de depresso. Eu batia na porta do quarto e ele no abria , recorda. A empresria chamou a polcia e, quando a porta foi aberta, se deparou com uma cena que vai ficar gravada para sempre na sua mente. Ele havia cortado os pulsos e se enforcado, lembra. Sete anos depois, Cntia admite que ainda no lida bem com as lembranas desse episdio. Mas diz que, mesmo assim, jamais tomaria um remdio para esquecer esse momento da sua histria. Minhas memrias esto dentro de mim para serem trabalhadas. Prefiro enfrent-las a apagar essa parte da minha vida.

PARA SABER MAIS
Reconsolidation as a Link Between Cognitive and Neuroscientific Memory
Oliver Hardt, Einar rn Einarsson e Karim Nader
Annual Review of Psychology, 2010


3. ZOOM  A ARTE DA DESTRUIO
Antes de Ecce Homo, Michelangelo e da Vince j haviam sofrido com restauradores. Conhea os grandes fracassos  e um sucesso curioso  da histria da restaurao.
TEXTO / Luiz Romero
DESIGN / Paula Bustamante

1- TRAGAM A CRUZ
A umidade havia deteriorado uma parte de Ecce Homo, do espanhol Elas Garca Martnez. A octogenria Cecilia Gimnez, preocupada, tentou ajudar, mas s conseguiu destruir o afresco  e virar um fenmeno na internet. A restaurao explodiu no Facebook, virou tema de prmio, que procura novas restauraes bizarras, e de petio, que pede que a verso de Cecilia seja preservada.

2- A MANGA DE JESUS
Mas obras muito mais conhecidas j passaram por deslizes na hora de serem recuperadas. No caso de A ltima Ceia, do italiano Leonardo da Vinci, a mudana de posio da manga de Jesus  que em cpias da verso original estaria atrs da mesa (A) e passou para cima da toalha na verso restaurada (B)  foi criticada por especialistas.

3- OBRA-PRIMA CORRIGIDA
O teto da Capela Sistina, do italiano Michelangelo, foi recuperado durante quase 20 anos, mas no sem erros. Olhos de pessoas e volumes em vestidos foram removidos, porque foram eles prprios confundidos com restauraes. Mas no eram, explica Michael Daley, da ArtWatch, organizao que vigia grandes restauraes.

4- DETALHES TO PEQUENOS
Uma obra conhecida como A Morte de Prcris, do italiano Piero di Cosimo, sofreu na National Gallery, em Londres. Apesar de parecer um detalhe, para Michael Daley, da ArtWatch, a mudana no olho do cachorro  significativa e, muito provavelmente, um erro cometido pelos restauradores.

5- FACA NA CAVEIRA
A famosa caveira de Os Embaixadores, do alemo Hans Holbein, tambm apanhou. Isso porque a National Gallery (de novo) decidiu corrigir a perspectiva desenhada por Holbein. E repintou a caveira a partir de uma imagem gerada por computador. O resultado: uma figura produzida no sculo 21 inserida em uma pintura do sculo 16.

6- DESPINTANDO
Depois dos fracassos, um sucesso. Com exames de ponta, restauradores do Masp descobriram um pnis escondido num quadro do francs Nicolas Poussin. Segundo Karen Barbosa, restauradora do museu, intervenes desse tipo, que apagavam pedaos polmicos da tela, eram comuns e aconteciam, principalmente, por pudor.



5. DINOS ENTRE NS
Achados recentes mostram que a relao entre dinossauros e aves  bem mais estreita do que se pensava. A ponto de podermos afirmar: eles continuam vivos.
TEXTO / Alexandre Versignassi e Leandro Sanches
DESIGN / Fabricio Miranda
ILUSTRAES / Eber Evangelista
CONSULTORIA / Luiz Iria

 esquerda, uma pata de avestruz.  direita, uma tpica de alguns dinossauros da famlia terpodes, a linhagem que deu origem s aves. Tal pai, tal filho.

Os tiranossauros, velociraptors, alossauros e cia. esto por a. A diferena  que agora eles atendem por nomes menos glamourosos  pintassilgo, tico-tico, galinha caipira, pato, pombo... Das quase 10 mil espcies de aves que existem, todas so descendentes diretas dos dinossauros. O parentesco entre os dois  um fato bem conhecido da biologia. A diferena  que, agora, comeam a surgir evidncias de que a relao entre os penosos e os escamosos  bem mais estreita. A comear pelas penas. Em julho deste ano, por exemplo, paleontlogos alemes encontraram um indcio de que boa parte dos dinossauros, como alguns que voc v nessas e nas prximas pginas, tinha penas. E bico. Conhea agora as caractersticas que as aves herdaram de seus avs, as criaturas mais fascinantes que j pisaram sobre a Terra.

PESCOO EM S
Uma diferena marcante entre dinossauros e crocodilos, por exemplo,  que s os primeiros tm pescoo em forma de S  justamente uma caracterstica das aves. Ela provavelmente evoluiu nos primeiros dinossauros como uma adaptao para ampliar o campo de viso (igual o bipedismo  seja nos dinos, seja nos homens). E o resultado foi o pescoo esguio. Os cisnes agradecem.

INSTINTO MATERNAL
Tartarugas so pssimas mes. Botam os ovos e tchau: a filhotada que se cuide depois. At pouco tempo atrs o consenso era que os dinossauros tambm se comportavam desta maneira, digamos, reptiliana. Mas no. Hoje sabemos que vrios deles faziam como os pssaros: eram pais exemplares, que construam ninhos e cuidavam dos filhotes.  o caso deste dino-ave aqui ao lado, o citipati, cujo fssil mostra o bicho chocando ovos.

BICO
Ns usamos as mos para cavar. Ento desenvolvemos unhas (com os cachorros aconteceu a mesma coisa). Outros usam a boca para cavar, ento desenvolveram unhas. Na cara. O bico  um par de unhas facial. Essa proteo evoluiu em alguns dinossauros, e desse grupo passou para todas as aves. Um dos dinos bicudos era o Citipati, na pgina ao lado. Mas alguns pesquisadores acreditam que at grandes carnvoros, como o tiranossauro, tivessem alguma espcie de bico, ainda que dentado, como o do nosso amigo aqui embaixo.

ASSIM CAMINHAM AS BICADAS:
PROTO-BICO - Este  um dilophasaurus, de 193 milhes de anos atrs, com seu projeto de bico.
BICO DENTADO - Fsseis de 125 milhes de anos atrs apresentam bico. Caso do beipiaosaurus aqui.
BICO PURO - O limusaurus (125 milhes de anos) j tinha bico sem dentes, como o das aves.

PS DE PASSARINHO
Responda em um segundo, valendo um milho de reais: os ps de um dinossauro pareciam mais com: a) os de um crocodilo; b) os de um periquito. Pois : a certa  a alternativa B. O grupo de dinossauros que deu origem s aves, os terpodes (dos quais faz parte o glorioso tiranossauro), j tinha ps de passarinho, com trs dedos para frente e um para trs  dedo extra que os pombos usam para se empoleirar nos fios eltricos.

OSSOS PNEUMTICOS
Os terpodes, ramo dos dinossauros mais prximos das aves, e que inclui o tiranossauro, tm ossos pneumticos, ou seja, com cmaras internas cheias de ar, como as aves modernas (e pneus!).  uma caracterstica essencial para o voo. Mas claro: tiranossauros no voavam  os ossos pneumticos deixavam o gigante mais leve e gil.

OSSO DA SORTE
Cada um pega de um lado do ossinho. E quem ficar com o pedao maior ganha.  o osso da sorte  brinquedo que as galinha forneciam para as crianas na era pr-videogame. Ele  formado pela fuso das duas clavculas e ajuda na sustentao dos ossos do trax durante o voo. Mas tambm era encontrado em vrios dinossauros, como o aerosteon aqui.

SACOS AREOS
Aves no tm sistema respiratrio  tm um metr respiratrio. O ar circula por uma rede intrincada de canais ligando reservatrios de ar. So os sacos areos. Eles mantm os pulmes sempre cheios, mesmo quando a ave expira. Isso confere um poder invejvel de respirao  e possibilita s aves voar a altitudes rarefeitas. Mas tudo comeou aqui no cho, para ajudar certos dinos a correr mais.

PUNHOS ARTICULADOS
A articulao do punho das aves de hoje permite uma ampla movimentao das asas. Alguns dinossauros tinham essa mesma caracterstica  caso dos maniraptores. O nome disso na biologia  exaptao: o uso de uma estrutura antiga para uma funo nova (igual aconteceu com os sacos areos e com as penas). Nos dinos, o punho articulado s servia para deixar as mos mais geis.

PENAS
J encontraram dezenas de dinossauros penosos  a maior parte do grupo dos coelurosaurus, que inclui de tiranossauros a dinos voadores. Mas o achado mais recente, o sciurumimus, desenterrado em julho, na Alemanha,  uma exceo: pertence ao grupo dos megalosauros, um ramo bem diferente. Isso sugere que o ancestral comum entre os dois grupos podia ter penas  e mais: que todos os dinossauros talvez tenham tido pelo menos algum tipo de penugem. A funo? A mesma que os pelos tm nos mamferos: regular a temperatura.


5. SADE  A CINCIA DO COC
Estudar as fezes no  coisa de maluco. Pode servir para entender melhor a nossa sade, a nossa mente e at mesmo o passado de toda a humanidade. Leve a revista para o banheiro e seja bem-vindo ao mundo da coprologia, a cincia que estuda o contedo da sua privada.
TEXTO / Ana Carolina Prado 
DESIGN / Ricardo Davino 
FOTO / Paulo Pereira

O QUE  ISSO NA MINHA PRIVADA? 
Cerca de 3/4 das fezes  gua pura. Mas a proporo pode variar de acordo com a consistncia. Quanto menos gua tiver, mais duras elas sero. O resto  sobra de alimento, bactrias mortas e um pouco de muco do intestino grosso para facilitar a passagem.

PEQUENO MANUAL DO COC
Uma pea saudvel  marrom graas  estercobilina, um pigmento escuro formado na digesto da bile  aquele fluido produzido pelo fgado que digere as gorduras. Alteraes na cor podem vir da ingesto de certos alimentos ou corantes, mas tambm podem indicar doenas. As principais cores erradas so:

BRANCO OU CINZA - Sem a estercobilina, o coc fica com cara de argila. Isso pode acontecer por algum problema no fgado, pncreas ou vescula biliar que esteja bloqueando a passagem da bile. Pode ser uma simples pedra na vescula ou um tenebroso cncer de pncreas.
VERMELHO - Alguns alimentos, como a beterraba, do essa cor. Mas se ela persistir pode ser sinal de que voc est sangrando em algum lugar do tubo digestivo. Se for vermelho vivo, o problema  na parte final  falando reto: um sangramento anal, as famosas hemorroidas.
PRETO - Coc preto indica sangramento na parte inicial da digesto  talvez na garganta ou estmago. Nesse caso, o sangue  digerido junto e chega preto  privada. O cheiro  importante: dizem que a coisa  to feia que quem conhece no esquece.
AMARELO - Pode indicar gordura, o que no  bom, j que o corpo deveria absorv-la. Assim, pode haver algo errado com o seu sistema digestivo (ou a sua dieta). E a cor  a parte menos nojenta: o coc gordo cheira muito pior do que o normal e flutua (o normal  afundar).
VERDE - Uma dieta com muito ferro (ou suplementos) pode deixar seu coc com essa cor. Mas pode ser tambm uma infeco, como a doena de Crohn (doena em que clulas imunolgicas atacam os tecidos digestivos e provocam dor, diarreia e muco nas fezes. cati).

FORMATO CILNDRICO
Esse  o formato ideal. Com uma ponta para facilitar a sada. Mas no  regra: cada pessoa tem um padro de cor, forma e frequncia. Nesse item, a variao  enorme: segundo o livro O que Seu Coc Est Dizendo a Voc, de Anish Sheth, pessoas do sul da sia evacuam at trs vezes mais do que ocidentais. Isso acontece por causa das fibras da dieta indiana. Ou seja, cuidado com o curry.

TIPO CABRITO - Tpico de quem sofre de priso de ventre (at 15% das pessoas), a forma indica que o coc demorou para chegar ao reto e est sem gua. Pode sinalizar pouca fibra na comida ou o costume de segurar. Sim, segurar resseca  e pode machucar na sada.
TIPO POA - O coc na forma lquida (como na diarreia) pode ser causado por bactrias. Mas tambm pode ser uma irritao do intestino por causa de alimentos exticos, a que o corpo no est acostumado. Isso agride a mucosa intestinal, e impede a absoro da gua.
TIPO TRIPINHA - Fezes finas so provavelmente apenas um sinal de que voc est forando demais e contraindo o esfncter (a vlvula que controla o abre e fecha do nus). Mas, se isso persistir, pode ser indcio de que algo est obstruindo o caminho. Vale dar uma olhada. 

ARQUEOLOGIA FECAL
O coc no revela informaes apenas sobre quem somos hoje. Coprlitos, fezes fossilizadas, dizem muito sobre a vida dos homens do passado  de hbitos alimentares a doenas. E, por causa disso, so considerados um tesouro para arquelogos. Os fsseis s se formam em duas condies: debaixo dgua, se a matria orgnica do coc for substituda por minerais, ou quando o material resseca em ambientes ridos. Por isso, fezes de ancestrais so muito raras, explica Eske Willerslev, bilogo evolucionista da Universidade de Copenhague. Foi graas  anlise de coprlitos humanos encontrados no Oregon, nos EUA, que Willerslev fez uma descoberta importante: o homem chegou  Amrica mil anos antes do que se imaginava. At pouco tempo, a teoria mais aceita era a de que uma leva de migrantes saiu da sia, cruzou o Estreito de Bering e chegou ao Alasca h cerca de 13 mil. A partir da, eles teriam se espalhado pelo continente. Mas a anlise dos coprlitos comprovou que o material tem mais de 14 mil anos de idade  mil a mais do que as pontas de lanas mais antigas encontradas. O estudo do DNA mitocondrial das fezes fossilizadas tambm revelou que eles pertencem a pessoas de um genoma vindo de outra parte da sia, que poderiam ser os antecessores da populao indgena americana atual.

TERAPIA DE PRIVADA
A crena de que o intestino preso pode interferir na personalidade vem da Idade Mdia (e se propagou depois.  s pensar em algum enfezado = cheio de fezes). Mas a cincia comprovou agora que existe, sim, uma relao direta entre o nosso estado psicolgico e o funcionamento intestinal. Um estudo feito na University College Cork, na Irlanda, mostrou que bactrias intestinais benficas  os famosos lactobacilos vivos - podem influenciar o nvel de estresse em ratos. Para o experimento, 16 ratos saudveis foram alimentados com o Lactobacillus rhamnosus, encontrado em iogurtes. Outros 20 receberam um caldo sem bactrias. Resultado: o primeiro grupo ficou mais aventureiro e explorou duas vezes mais seus labirintos, sugerindo menos ansiedade. Alm disso, quando foram forados a nadar, eles tambm lutaram mais para no afogae. E houve diferenas na qumica cerebral: depois do mergulho, os ratos alimentados com as bactrias tinham metade do corticosterona (hormnio relacionado ao estresse) no sangue do que os outros. Agora s falta saber se isso tambm funciona com humanos. Outros trabalhos j mostraram que probiticos podem melhorar a sade mental de pessoas com sndrome da fadiga crnica  alm de melhorar a memria em humanos saudveis.

4 COCORIOSIDADES
Troca-troca - O transplanto de coc existe. E pode salvar vidas em caso de infeces de superbactrias, como a Clostridium difficile. Os antibiticos usados contra ela, alm de serem ineficientes, matam toda a flora intestinal. A a estratgia  repovoar o intestino com as bactrias naturais e fazer com que elas lutem contra a Clostridium. Para isso,  s pegar 30 g de coc de um doador, misturar com gua salgada e inserir por um tubo que entra pelo nariz (ugh) e vai at o estmago do paciente.
Que sensao -  possvel chegar a um estado de euforia e xtase quando se vai ao banheiro  semelhante ao orgasmo. A passagem das fezes no reto ativa o nervo vago, que sai do crnio e leva impulsos nervosos ao estmago e intestino delgado. Isso pode provocar a diminuio dos batimentos cardacos e do fluxo de sangue para o crebro, explica Anish Sheth em O que Seu Coc Est Dizendo a Voc. A sensao  de relaxamento, arrepios, tontura  e at de perda de conscincia.
Pum nosso - S 10% dos gases vm da fermentao do alimento. A maior parte vem da boca, quando engolimos ar sem querer ou em bebidas com gs. Os gases produzidos pelas bactrias do intestino no tm cheiro. Os alimentos  que tm. Feijo, ervilha e repolho, por exemplo, contm rafinose, um acar que no digerimos e que produz muitos gases. Mas as maiores responsveis pelo futum so as protenas, cuja fermentao gera enxofre (!). Comer carne, meu amigo,  garantia de cheiro ruim.
Vai encarar? - O cientista Mitsuyuki Ikeda, do Centro de Avaliao Ambiental de Okayama, no Japo, resolveu melhorar a vida de quem no come carne e se preocupa com o ambiente. Ele criou uma carne feita de excremento humano. Sim, coc. E vindo do esgoto. Funciona assim: ele coleta lodo do esgoto, rico em fezes humanas, retira protenas e lipdios, e os aquece para matar as bactrias. Depois, adiciona um pouco de protena de soja e molho de carne de verdade para dar gosto. 

Produo: Estdio Luzia 
Fontes: Orlando Ambrogini Junior, mdico gastroenterologista da Unifesp. Flavio Antonio Quilici, professor da PUC Campinas e presidente da Sociedade de Gastroenterologia de So Paulo. O que Seu Coc Est Doizendo a Voc, de Anish Sheth e Josh Richman.

PARA SABER MAIS
O que seu coc est dizendo a voc, Anish Sheth e Josh Richman, Matrix, 2008.


6. HISTRIA  AS EQUAES MAIS IMPORTANTES DA HISTRIA
Encontramos as sete frmulas fundamentais que explicam a vida, o universo e tudo mais. Entenda de uma vez por todas o que elas significam  e como construram a base da cincia do nosso tempo.
TEXTO / Luiz Romero
DESIGN / Paula Bustamante
ILUSTRAO / Caco Neves

1- Teoria da Relatividade
ILUSTRE DESCONHECIDA
Ela foi criada pelo maior fsico de todos os tempos, o alemo Albert Einstein, mas, apesar de tanto sucesso, como aquelas citaes que perdem o sentido depois de um tempo, pouca gente sabe do que E=mc2 trata. Einstein escreveu: a massa de um corpo  uma medida de seu contedo de energia. Isso equivale a colocar um sinal de igual entre energia e massa e dizer que uma coisa pode virar a outra. Alm disso, como elas esto ao lado de um valor gigante  a velocidade da luz vezes ela mesma , significa dizer que qualquer pedao de massa, at os mais nfimos, tem muita, muita energia. Uma prova: coisas to pequenas como pedras de urnio ou plutnio, quando manipuladas para liberar a energia que carregam, conseguiram gerar as exploses que destruram Hiroshima e Nagasaki.

2- Equaes do Eletromagnetismo
SINFONIA UNIVERSAL
Elas viajam muito: pelo Universo, liberadas de quasares e pulsares, tambm pela Terra, emitidas por antenas de rdio e celular, e at por dentro do nosso corpo, em exames de raio X. So as ondas eletromagnticas, descobertas pelo escocs James Clerk Maxwell no sculo 19 e resumidas de forma magistral em apenas algumas frmulas. Na poca, Maxwell tambm entendeu que, apesar de iguais, essas ondas andam de jeitos diferentes. Se o Universo fosse uma orquestra, as ondas de raio X seriam violinos, as de luz visvel seriam violoncelos e as de rdio, maiores que todas, seriam contrabaixos. Maxwell descreveu estes instrumentos de forma parecida  ondas tm frequncias e comprimentos  e criou uma notao musical nica  as equaes fundadoras do eletromagnetismo.

3- Identidade de Euler
BELEZA, MATEMTICA
Imagine juntar ingredientes doces, azedos e salgados, mas fazer isso com tanto domnio da tcnica que o resultado  uma obra-prima. Esse  o grande feito do suo Leonhard Euler, s que os ingredientes so nmeros e o prato  uma equao, nada menos do que a mais bonita da matemtica. Tanto que uma variao da frmula, a identidade de Euler, j foi comparada com a Mona Lisa. Muito por harmonizar elementos diversos: o i (que vale raiz-1) e o e (que vale 2,71), que so abstraes criadas pelos matemticos, utilizadas para resolver problemas sem soluo, e o Pi (que vale 3,14), uma inveno da natureza que existe em todos os crculos do universo. Euler no s junta esses conceitos com elegncia como adiciona tudo a 1 e iguala o resultado a 0. Unindo grupos diversos, mas de forma abrangente e harmnica, a criao do suo  considerada o grande exemplo de beleza matemtica.

4- Teorema de Pitgoras
UMA REGRA HISTRICA
Uma regra pode existir sem uma frmula, explica Cludio Furukawa, fsico da USP. E esse foi o caso do teorema de Pitgoras: a humanidade passou um bom tempo sabendo que a soma do quadrado dos lados menores do tringulo retngulo equivale ao quadrado do lado maior, mas sem letras que representassem essa ideia. No Egito, por exemplo, muito antes do c2=a2+b2, a relao j era usada para calcular o tamanho de terrenos, depois das cheias do rio Nilo, que acabava com as divises feitas pelos egpcios. E tudo sem equao. Isso at algum grego passar a regra a limpo. Porque, apesar do nome, o teorema pode no ter sido criado por Pitgoras. Muitas teorias de alunos da Escola Pitagrica, fundada pelo grego, foram pensadas depois que Pitgoras morreu  e, mesmo assim, creditadas a ele.

5- Segunda Lei de Newton
VELHO MUNDO NOVO
So apenas trs letras, mas elas encarnam uma mudana no jeito de enxergar o mundo que revolucionou a cincia. O grego Aristteles achava que o movimento nascia de dentro do objeto e que as foras agiam de forma diferente na Terra e no resto do Universo. O ingls Isaac Newton mudou tudo isso: disse que os objetos se movem de acordo com foras externas e respeitam as mesmas regras em todos os lugares. Para entender, imagine o voo de uma flecha. Aristteles diria que o movimento acontece porque aquele objeto  uma flecha e est voando na Terra. Mas se fosse uma bola voando na Lua, tudo seria diferente. Enquanto Newton seria mais racional: flecha e bola so massas, Terra e Lua so espaos. Mudam os objetos e os lugares, mas a regra (uma mudana de movimento  proporcional  fora colocada no objeto) e os elementos (fora, massa e acelerao) continuam iguais. Com isso, Newton colocou todas as coisas que existem no mesmo ambiente. No caminho, ele descobriu um mundo novo, um pouco abstrato, alcanado por letras e nmeros: o mundo da fsica clssica, explorado (e contrariado) nos sculos seguintes.

6- Lei da Gravitao Universal
ESQUEA A MA
Diferente da lenda, a gravidade no surgiu na cabea de Newton pela queda de uma ma. Ela foi construda como tudo na cincia (e como todas as equaes desta matria): com o trabalho de outros pesquisadores. Novamente, tudo comeou com Aristteles. Segundo Robert Crease, autor de As Grandes Equaes, ele achava que as causas da queda incluam a composio do objeto, seu lugar natural na Terra e a tendncia de voltar a esse lugar. Depois dele, o polons Nicolau Coprnico colocou o Sol no centro do Sistema Solar, mas ainda achava que a gravidade era uma vontade implantada por Deus. Ainda nessa linha, o alemo Johannes Kepler pensava que o Sol possua uma alma que atraa outros astros. Depois, ele viria a entender que essa alma, na verdade, era uma fora. Foi sobre os ombros destes gigantes que Newton formulou a teoria da gravitao, que explica a atrao entre corpos  ou por que voc fica grudado ao cho da Terra. Sem mas, sem ideias geniais que surgem do nada.

7- Princpio da Incerteza
NOVA REVOLUO
A cincia pode ser feita da construo de ideias, mas, muitas vezes, acontece pela destruio de algumas delas. O alemo Werner Heisenberg estava cansado de ver fsicos tentando encaixar as regras da fsica clssica, que rege objetos visveis como mas e planetas, na fsica quntica, que fala do universo invisvel dos tomos. Ento, ele esqueceu Newton e criou novas regras. Uma delas, o princpio da incerteza, diz que no  possvel medir, ao mesmo tempo, a posio e a velocidade de uma partcula. Como no d para ter certeza da posio, ela pode estar (e est) em todos os lugares ao mesmo tempo, explica Furukawa. Nossa mente no consegue compreender essa ideia, porque ela vai contra as regras do nosso universo. Na verdade, ela representa um novo universo, muito pequeno, mas grandioso. Como todas as frmulas desta matria, o princpio lembra um tnel construdo com letras e nmeros, capaz de levar aqueles que tentam entend-lo a realidades completamente diferentes. 

PARA SABER MAIS
As Grandes Equaes
Robert Crease, Zahar, 2011


